Artigos

Aspectos Bioquímicos e Hematológicos de Radaristas e Alterações após uma jornada de trabalho no controle de tráfego aéreo do Rio de Janeiro (APP/RJ), EM 1999:

12/mai/2012

1 Moreira, Sérgio Bastos; 2 Cosendey, Alexandre Elias; 3 Vidal, Mário Cesar Rodriguez

1 Grupo de pesquisas em Aptidão Física e Trabalho (GRAFIT/PPGEF), Universidade Gama Filho

R. Manoel Vitorino 625, Piedade, Rio de Janeiro, CEP: 20748-900, tel.5997138

Email: ppgef@onix.ugf.br, setemeio@openlink.com.br

1 Laboratório de Bioquímica do Esporte, Av. Aírton Senna 1850 sl. 416, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, CEP 22775-000, tel.4303455, e-mail: bioquimesporte@aol.com

3 Grupo de Ergonomia e Novas Tecnologias (GENTE/COPPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro

Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, CEP:21945-970, tel.2807438 / 5904144, e-mail: gente@pep.ufrj.br

Site: http://www.gente.ufrj.br

Abstract

This research had objectified to verify, by the application of a recent model (COSENDEY, 1997), the results of biochemical-hematological analysis that, separately or combined, were able to represent practical markers of organic answers about the laboral stress. The interpretation of the results gave informations about the integrity of muscle cells, bone cells, hepatic cells and blood cells, relacted to the flight controllers and their work journey. Conclusions: there are obvious traces of a chronic state of hypohydratation on the radar men, motivated by the habit of few hydric swallow, inflammed by the insufficient furnishing of drinkable water on the job place. More than 33% of the studied sample showed evidences of a hypohydratation state. Another important fact was the considerable incidence of hepatic intoxication, confirmed by the intersection of the TGP, GGT and alcaline fosfatase, complemented by the analysis of total CK, CK-MB, TGO, LDH and bilirrubines. The number of allergy cases has also been representative, first of all the allergical rinite, that can be relacted to acarus on the air conditioner system. The dehydratation state, that improves the mucus viscosity, makes its passage difficult and may obstruct and do that the allergical rinites evolute to sinusites or other infectious processes, what had been comproved in many individuals, by the increase of leuccocitus counting. We had also verified that, maybe by ansiety, the controllers swallow excess of carbohydrates during their laboral journey, in kind of many cups of coffee with sugar, cookies, bread, cakes and groceries, what increases the triglicerides taxes, that in some individual grew 200mg/dl on a six hour period. It was evidenced, in 60% of the sample , by the TGO, CK, LDH and creatinine values, that the subjects were routinely doing an intense muscular activity, although, without reaching the levels to provoke tecidual lesion. As we know, in general the controllers keep sitting 31% of the time on their daybreak journey, 95% on the morning, 96.5% on the afternoons and 83.7% on the night journey (MOREIRA & VIDAL,1999), so the muscular activity can only be originated from external habits of the people, by chronic muscular tension states (isometric contractions), which can be caused by innadequate posture or by excessive excitement, because of stress. Together to this case, 70% of the controllers confirmed they’re not used to practice any physical activity, what describes them as sedentary people. So, to the posted work, to the non-balanced alimentation, to the few hydric swallow, to the tension provoked by the responsability of the laboral work executed, to the tabagism, to the alcoholism and to the double journey, that many times is necessary because of the small salary, together with the rapid deterioration of the physical condition, caused by the sedentarism that conduces to the hypo-kinetic diseases, which are able to forbid the society of a specialyzed professional, besides compromising the individual life and all his social circle. Finally, it’s good to emphasyze that a regular program of non-competitive physical activities should be used on the administration of the APP/RJ human recourses , as a way to lighten the daily stress, to develop a physical condition compatible to good health, to create the habit of moving all the corporal segments more regularly, and to prevent the problems that use to attack the sedentary workers.

1. Introdução

Pesquisas em análises clínicas desenvolvidas, há muitas décadas (BACELLS,1958; TIETZ,1970, BACELLS,1974) já descreviam as inúmeras variações nos exames bioquímico-hematológicos, decorrentes das mais diversas patologias, bem como das modificações fisiológicas do organismo vivo. Com a evolução e especialização desses exames, tornou-se possível antever alterações orgânicas através de interpretações qualitativas e quantitativas dos mesmos, como consta na literatura especializada em Análises Clínicas (BACELLS,1958,1974; CAMPBELL & FRISSE, 1985; DACIE & LEWIS, 1975; DAVIDSSOHN & HENRY, 1974; HENRY, 1995; TIEZ, 1995; PÓVOA, 1995).

 

Em 1993 Pollock e Wilmore descreveram três maneiras clássicas para realizar avaliações da intensidade de esforços físicos: o método metabólico através da análise do consumo de oxigênio (VO2), a análise da freqüência cardíaca e o índice de percepção do nível de esforço (escala de Borg). Na avaliação do estresse mental alguns estudos (CABON & FOUILLOT, 1994), têm procurado monitorar o comportamento eletroencefalográfico, para a identificação dos momentos de maior solicitação cognitiva.

Contudo, na prática ergonômica, os estudos de fisiologia têm mostrado que até o presente momento, as determinações metabólicas da intensidade do estresse laboral não têm utilizado rotineiramente os exames químicos do sangue, objetivando monitorar a carga de trabalho. E entretanto, as análises bioquímico-hematológicas poderiam contribuir, de forma prática e pouco invasiva, para avaliação e orientação de variações fisiológicas individuais, em programas de aptidão físico-profissional

 

Buscando conhecer um pouco das alterações bioquímicas e hematológicas que ocorrem com controladores de tráfego aéreo como decorrência de sua jornada de trabalho, foi elaborada uma relação de 36 exames cujos resultados permitissem, quando analisados em conjunto, visualizar o comportamento de diversos tecidos (muscular, ósseo, cardíaco e hepático) do organismo, face à uma jornada de trabalho no Controle de Tráfego Aéreo do Rio de Janeiro (APP/RJ). Os 36 exames foram empregados, portanto, para avaliar a integridade celular e detectar possíveis lesões e carências bioquímicas e hematológicas, pré e pós atividade laboral.

 

2. Objetivo

A presente pesquisa objetivou verificar, pela utilização de um modelo recente (COSENDEY,1997), os resultados de análises bioquímico-hematológicas que, isoladamente ou em conjunto, fossem capazes de representar marcadores práticos de respostas orgânicas no processo do estresse laboral. A interpretação dos resultados forneceria dados sobre a integridade das células musculares, ósseas, hepáticas e do sangue, relacionados aos controladores de vôos e a suas cargas de trabalho.

3. Materiais e métodos

Extraída de uma população de 60 profissionais atuantes no APP/RJ, uma amostra probabilística, constituída por nove radaristas, foi selecionada por aleatoriedade simples. No desenvolvimento da pesquisa, inicialmente foi efetuada uma reunião com os integrantes da amostra selecionada, com a finalidade de esclarecer todos os detalhes previstos para o desenrolar do estudo e, como prova de concordância em participar do mesmo, todos assinaram um termo de consentimento, onde constava explicitamente sua completa liberdade de, a qualquer momento, desistir de sua participação sem que este ato lhe acarretasse nenhum prejuízo.

Os indivíduos submeteram-se a duas coletas sangüíneas: a primeira, realizada em jejum, foi efetuada quando chegavam para o início do serviço matutino no APP/RJ. Após esta coleta de sangue, os radaristas foram liberados para tomar o café da manhã e agir como rotineiramente o fazem durante sua jornada normal, sem nenhuma restrição especial.

 

Uma segunda coleta sangüínea foi efetuada logo após o término da jornada de trabalho, destinando-se à comparações com o material inicialmente coletado, de modo a permitir a verificação de possíveis variações hematológicas e bioquímicas de curto prazo, como decorrência de uma jornada matutina típica, de seis horas de trabalho no APP/RJ.

As variáveis escolhidas para serem analisadas quanto a suas dosagens no sangue dos indivíduos que compuseram a mostra foram: a glicose, a uréia, a creatinina, o colesterol total, o colesterol HDL, o colesterol LDL, os triglicerídeos, o ácído úrico, a TGO, a TGP, a GGT, a fosfatase alcalina, a CK total, a CK-MB, a CK-MM, a LDH, o cálcio, o fósforo, o ferro, a bilirrubina total, a bilirrubina direta, a bilirrubina indireta, os leucócitos, as hemácias, a hemoglobina, o hematócrito, o volume corpuscular médio, a hemoglobina corpuscular média, a concentração da hemoglobina corpuscular média, a amplitude da distribuição das hemácias, as plaquetas, o volume plaquetário médio, o plaquetócrito, os linfócitos, os monócitos e os granulócitos.

As análises bioquímicas e hematológicas foram realizadas, respectivamente, em auto-analisadores Cobas Mira Plus e Cobas Micros STEX 18, ambos da marca Roche.

Na fase de recolhimento de dados, foi utilizado um material de coleta composto por tubos marca BD, tipo vaccutainer hemogard sem anticoagulante para bioquímica; tubos marca BD, tipo vaccutainer hemogard com EDTA-Na (sal sódico do ácido etilenodiaminotetracético) para hematologia; agulhas descartáveis marca BD para coleta de múltiplos tubos. Para cada indivíduo foram utilizados um tubo para bioquímica e um tubo para hematologia.

O sangue do tubo para bioquímica, deixado coagular por meia hora em temperatura ambiente, foi centrifugado e dele separado o soro. Decorridos cinco minutos, o soro foi colocado em um auto-analisador bioquímico multicanal Cobas Mira Plus marca Roche, para obtenção dos resultados das análises bioquímicas propostas.

O sangue do tubo para hematologia colocado em uma bandeja homogeneizadora por cinco minutos foi, em seguida, aspirado por um auto-analisador hematológico Cobas Micros STEX 18 marca Roche, visando aos resultados das análises hematológicas propostas.

As contagens celulares realizadas pelo analisador hematológico foram confirmadas através de microscopia, num microscópio binocular Labophot 2 marca Nikon.

Os reagentes preparados para as análises bioquímicas foram medidos com auxílio de micropipetadores automáticos com êmbolo marca Tri-Continent Scientific com capacidades distribuídas desde 10 até 5000 microlitros.

Ainda foram empregados, como material de apoio, as vidrarias para análise química e agitadores automáticos de tubos.

 

Nas coletas de sangue, todas realizadas na sala de repouso dos controladores do APP/RJ, o local da punção das veias superficiais dos antebraços esquerdo e/ou direito foi desinfetado previamente, com uma solução de álcool hidratado a 70%, iodado a 1% e glicerinado à 2%.

 

O sangue foi retirado com auxílio de um sistema de coleta a vácuo, com agulhas descartáveis para preenchimento de múltiplos tubos.

Para informação atualizada sobre a rotina de vida dos indivíduos e as cargas de treinamento foram realizadas entrevistas individuais e preenchidos questionários de anamnese.

Para maior controle das ameaças à validade interna, os eventos específicos que ocorreram entre as duas coletas individuais de sangue foram registrados através de observações “in loco”, ao longo da jornada de trabalho.

 

Erros de instrumento de medida foram evitados pelo uso de instrumental bem aferido. Para o controle de precisão e exatidão intralaboratoriais das análises, empregaram-se soros controles internacionais, marca Roche.

 

A precisão e exatidão intralaboratoriais do contador eletrônico Cobas micros STEX 18, foram verificadas com sangues-controles internacionais da marca Roche. Foram também utilizados sangues padronizados interlaboratorialmente, por repetidos exames em dois outros contadores eletrônicos de células da marca Coulter – previamente calibrados.

4. Tratamento estatístico

 

Estatísticas descritivas das distribuições de cada uma das substâncias analisadas foram calculadas para as duas coletas de sangue (antes e depois da jornada de trabalho) e, uma vez que é conhecido o tamanho real da população (N = 60), tendo em vista ser o tamanho das amostras pesquisadas (n) maior do que 5% daquela totalidade, foi aplicado o coeficiente de correção finita no cálculo do erro amostral (Lapponi, 1997).

 

Por meio dos testes: Qui-quadrado, Kolmogorov-Smirnov e Anderson-Darling, as estatísticas amostrais foram comparadas com a distribuição normal para verificação de compatibilidade com testes paramétricos.

 

Considerando que o presente estudo refere-se à observação de possíveis alterações nas análises sangüíneas em decorrência da jornada laboral, as comparações entre as dosagens das substâncias pesquisadas teve que ser feita em cada uma delas separadamente, pois não havia nenhum interesse em comparar alterações entre diferentes substâncias, o que conduziu à escolha de testes estatísticos para duas amostras pareadas.

 

Os procedimentos estatísticos mostraram que a compatibilidade dos dados amostrais com a distribuição normal foi encontrada apenas nos casos do colesterol-HDL, colesterol-LDL, hemácias, TGO, CK total, CK-MM, fósforo, ferro, bilirrubina direta, leucócitos, concentração de Hb corpuscular média, plaquetas, amplitude de distribuição das hemácias, linfócitos e granulócitos. Para esses casos, optamos por um teste clássico (paramétrico), sendo utilizado o teste-t de student, para amostras emparelhadas. Em todas as demais comparações foi utilizado o teste de Wilcoxon e o nível de significância escolhido foi sempre de 5% ( = 0,05).

5. Resultados

 

Os resultados obtidos pela aplicação dos testes de Wilcoxon indicaram que em relação à glicemia, ao colesterol total, ao ácido úrico, à GGT, à CK-MB, à LDH, à Hb, ao hematócrito, ao volume corpuscular médio, à hemoglobina corpuscular média, ao volume plaquetário médio e aos monócitos as alterações encontradas na amostra não foram significativas (p>0,05).

 

As comparações entre as análises antes e depois da jornada de trabalho, referentes à TGP, ao cálcio e à bilirrubina total evidenciaram aumentos significativos (p<0,05). Os triglicerídeos, a fosfatase alcalina e o plaquetócrito também mostraram incrementos muito significativos (p<0,01) após seis horas de trabalho. A creatinina, assim como a bilirrubina indireta apresentaram uma diminuição significativa (p<0,05), observando-se também uma queda do nível sangüíneo de uréia (p<0,01).

 

Os testes-t indicaram que as alterações porventura registradas nas dosagens sangüíneas de colesterol-LDL, TGO, CK-MM, fósforo, ferro, bilirrubina direta, leucócitos, hemácias, concentração de Hb corpuscular média, amplitude de distribuição das hemácias, linfócitos e granulócitos não foram significativas (p>0,05). Verificamos, contudo, que a CK-total aumentou e o colesterol HDL reduziu-se significativamente (p<0,05), enquanto que as plaquetas apresentaram um aumento bastante significativo (p<0,01)

 

As interpretações dos resultados foram feitas segundo normas internacionais de Química Clínica. Muitas vezes, os resultados das análises não são patognomônicos de alterações fisiológicas e, por isso, devem ser interpretados como sinais ou possibilidades diagnósticas a serem investigadas.

 

É preciso considerar que os resultados de exames refletem o momento de vida do indivíduo, com todas as influências do estresse total a que ele está submetido (alterações emocionais, alterações nos ritmos circadianos, tipo de alimentação, possíveis contusões cotidianas, estados viróticos leves, ou outras situações), na época da coleta ou num espaço curto de tempo em torno desta.

As interpretações dos resultados já são consagradas mundialmente em análises clínicas e na medicina. Portanto, não se pretendeu aqui confirmar a eficácia dos exames utilizados em diagnosticar as variações fisiológicas, mas, sim, apresentar os resultados de forma a facilitar sua utilização pelos profissionais que atuam na área de análise da carga de trabalho.

 

A CK MB tem valores normais de até 25 unidades por litro (U/l) ou 6% da CK total. Porém interpretações mais adequadas ocorrem, ao considerar seu teor até 10% da CK total (COSENDEY, 1997).

É provável que, pelo fato da análise da CK MB basear-se na inibição imunológica da CK MM, possam ocorrer erros técnicos, deixando passar a fração MM para ser detectada no ato da dosagem da MB. Isso ocorrerá mais facilmente se alguns cuidados deixarem de ser tomados com relação à validade do reagente, à capacidade bloqueadora dos anticorpos, à concentrações demasiadamente altas da fração MM, ao congelamento do soro antes da análise e outros.

6. Conclusões e recomendações

Tendo em vista os resultados obtidos nas análises sangüíneas realizadas na amostra de radaristas estudada, procuramos fazer algumas confrontações de dados, de maneira a poder entender um pouco melhor as possíveis razões que influenciaram o organismo dos indivíduos durante sua jornada de trabalho e fizeram com que os resultados bioquímicos e hematológicos se apresentassem do modo observado.

 

Um minucioso detalhamento das informações registradas nos arquivos de dados da pesquisa permitiu, então, que possamos emitir algumas conclusões inequívocas a respeito de alguns aspectos da realidade laboral e do estilo de vida dos controladores do APP/RJ.

 

Em primeiro lugar, saltam aos olhos os indícios de um estado crônico de hipohidratação nos radaristas, motivado pelos hábitos de pouca ingestão hídrica, agravados pelo deficiente fornecimento de água potável de boa qualidade no recinto de trabalho. Os controladores parecem não confiar suficientemente na qualidade da água que abastece a sala-de-estar dos radaristas.

 

No dia 16 de dezembro de 1999, quando realizamos algumas entrevistas individuais para sanar dúvidas sobre hábitos de vida dos componentes da amostra, constatamos que o filtro de água que existia na sala fora retirado, o que seguramente contribui ainda mais para agravar a baixa ingestão hídrica dos controladores.

 

Em estudo realizado sobre o assunto, Moreira e Vidal1 (1999) constataram que a ingestão média individual de água pelos radaristas, situa-se entre 69 e 85ml por jornada, valores sensivelmente abaixo do recomendado, principalmente em ambiente com ar condicionado, que favorece o ressecamento das mucosas das vias aéreas, tão solicitadas no trabalho de comunicações radiofônicas, típico do controle de vôos.

 

Nos exames bioquímicos e hematológicos efetuados neste trabalho, mais de 33% da amostra estudada apresentava evidências de um estado de hipohidratação.

 

Outro fato que chamou a atenção foi a considerável incidência de indícios de intoxicação hepática, confirmados pelo cruzamento das dosagens de TGP, GGT e fosfatase alcalina, complementados pelas análises de CK total, CK-MB, TGO, LDH e bilirrubinas.

 

Também mostrou-se representativo o número de casos de alergia, principalmente rinite alérgica, o que pode estar relacionado a problemas de ácaros no sistema de ar condicionado. Ressaltamos que o estado de desidratação, provocando um aumento na viscosidade do muco, dificulta seu trânsito e pode causar obstruções e fazer com que as rinites evoluam para sinusites ou outros processos infecciosos, o que de fato se constatou em diversos indivíduos, por um aumento na contagem de leucócitos.

 

Verificamos ainda que, talvez por ansiedade, os controladores ingerem carboidratos em excesso durante a jornada laboral, na forma de várias xícaras de café com açúcar, doces, bolos, biscoitos e pães, o que provoca um sensível aumento nas taxas de triglicerídeos que, em alguns indivíduos chegaram a subir 200mg/dl num período de seis horas.

 

Em 60% da amostra evidenciou-se, pelos valores encontrados de TGO, CK, LDH e creatinina, que os indivíduos estavam realizando rotineiramente uma intensa atividade muscular, embora sem atingir o nível de provocar lesão tecidual. Ora, sabendo-se que em geral o controlador permanece sentado 31% do tempo da jornada nas madrugadas, 95% nas manhãs, 96,5% nas tardes e 83,7% nos turnos da noite (Moreira e Vidal2 –1999), essa atividade muscular só pode ter origem nos hábitos externos das pessoas ou então podem ser originárias de estados de tensão muscular (contrações isométricas) crônica, que podem ser causados por posturas inadequadas ou por excesso de excitação devido a estresse.

 

Juntando-se a esse quadro, 70% dos controladores confirmaram que não costumam praticar qualquer tipo de atividade física, caracterizando-se como sedentários. Assim, ao trabalho postado, à alimentação desbalanceada, à parca ingestão hídrica, à tensão provocada pela responsabilidade da tarefa laboral executada, ao tabagismo, ao álcool e à dupla jornada de trabalho que para muitos se faz necessária devido à baixa remuneração salarial, junta-se a deterioração acelerada da condição física, provocada pelo sedentarismo que conduz às doenças hipocinéticas, capazes de privar a sociedade dos serviços de um profissional especializado, além de comprometer a qualidade de vida do próprio indivíduo e de todo seu círculo social.

 

O presente trabalho foi o início de um estudo científico sobre o entrelaçamento de três áreas de conhecimento: a Ergonomia, a Fisiologia do Trabalho e a Bioquímica e, esperamos que possa servir como ponto de partida para outros especialistas em análises clínicas que queiram apmpliar a aplicação dos exames laboratoriais na monitoração do estresse laboral e da Aptidão Físico-profissional, fornecendo, dessa forma, mais recursos para a tão difícil tarefa de análise da carga de trabalho.

Considerando que este estudo refere-se à situação bioquímica e hematológica de radaristas numa jornada matutina, possivelmente o comportamento das variáveis selecionadas poderia ser diferente em outros turnos de trabalho, o que merece ser investigado futuramente. Dessarte, recomendamos que novas pesquisas sejam efetuadas com um maior aprofundamento na observação do comportamento de cada substância analisada, de maneira a aprimorar, quantitativa e qualitativamente, as informações que cada uma delas pode propiciar para uma melhor interpretação do estresse laboral.

Finalizando, nunca é demais enfatizar que um programa regular de atividades físicas não competitivas deveria ser utilizado na administração dos recursos humanos do APP/RJ, como uma maneira de aliviar o estresse cotidiano, desenvolver uma condição física compatível com a boa saúde, criar o hábito de movimentar todos os segmentos corporais com mais regularidade e prevenir os problemas que costumam acometer os trabalhadores de regimes sedentários.

7. Referências Bibliográficas

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1Moreira, S.B. & Vidal, M.C. (1999), Ingestão hídrica dos radaristas e aspectos ambientais de temperatura, umidade relativa do ar e radiação X na sala do Controle de Tráfego Aéreo do Rio de Janeiro (APP/RJ) em 1999, In: Relatórios de pesquisas ergonômicas realizadas no controle de tráfego aéreo do Rio de Janeiro (APP/RJ), em 1999, COPPE/UFRJ.

2Moreira, S.B. & Vidal, M.C. (1999), Movimentação corporal dos radaristas, gasto energético médio de trabalho e quantidade de aeronaves sob vigilância no Controle de Tráfego Aéreo do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, In: Relatórios de pesquisas ergonômicas realizadas no controle de tráfego aéreo do Rio de Janeiro (APP/RJ), em 1999, COPPE/UFRJ.

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Resumo

A presente pesquisa objetivou verificar, pela utilização de um modelo recente (COSENDEY,1997), os resultados de análises bioquímico-hematológicas que, isoladamente ou em conjunto, fossem capazes de representar marcadores práticos de respostas orgânicas no processo do estresse laboral. A interpretação dos resultados forneceu dados sobre a integridade das células musculares, ósseas, hepáticas e do sangue, relacionados aos controladores de vôos e a suas cargas de trabalho. Conclusões: há claros indícios de um estado crônico de hipohidratação nos radaristas, motivado pelos hábitos de pouca ingestão hídrica, agravados pelo deficiente fornecimento de água potável de boa qualidade no recinto de trabalho. Nos exames bioquímicos e hematológicos efetuados neste trabalho, mais de 33% da amostra estudada apresentava evidências de um estado de hipohidratação. Outro fato que chamou a atenção foi a considerável incidência de indícios de intoxicação hepática, confirmados pelo cruzamento das dosagens de TGP, GGT e fosfatase alcalina, complementados pelas análises de CK total, CK-MB, TGO, LDH e bilirrubinas. Também mostrou-se representativo o número de casos de alergia, principalmente rinite alérgica, o que pode estar relacionado a problemas de ácaros no sistema de ar condicionado. Ressaltamos que o estado de desidratação, provocando um aumento na viscosidade do muco, dificulta seu trânsito e pode causar obstruções e fazer com que as rinites evoluam para sinusites ou outros processos infecciosos, o que de fato se constatou em diversos indivíduos, por um aumento na contagem de leucócitos. Verificamos ainda que, talvez por ansiedade, os controladores ingerem carboidratos em excesso durante a jornada laboral, na forma de várias xícaras de café com açúcar, doces, bolos, biscoitos e pães, o que provoca um sensível aumento nas taxas de triglicerídeos que, em alguns indivíduos chegaram a subir 200mg/dl num período de seis horas. Em 60% da amostra evidenciou-se, pelos valores encontrados de TGO, CK, LDH e creatinina, que os indivíduos estavam realizando rotineiramente uma intensa atividade muscular, embora sem atingir o nível de provocar lesão tecidual. Sabendo-se que em geral o controlador permanece sentado 31% do tempo da jornada nas madrugadas, 95% nas manhãs, 96,5% nas tardes e 83,7% nos turnos da noite (2MOREIRA e VIDAL, 1999), essa atividade muscular só pode ter origem nos hábitos externos das pessoas ou então podem ser originárias de estados de tensão muscular (contrações isométricas) crônica, que podem ser causados por posturas inadequadas ou por excesso de excitação devido a estresse. Juntando-se a esse quadro, 70% dos controladores confirmaram que não costumam praticar qualquer tipo de atividade física, caracterizando-se como sedentários. Assim, ao trabalho postado, à alimentação desbalanceada, à parca ingestão hídrica, à tensão provocada pela responsabilidade da tarefa laboral executada, ao tabagismo, ao álcool e à dupla jornada de trabalho que para muitos se faz necessária devido à baixa remuneração salarial, junta-se a deterioração acelerada da condição física, provocada pelo sedentarismo que conduz às doenças hipocinéticas, capazes de privar a sociedade dos serviços de um profissional especializado, além de comprometer a qualidade de vida do próprio indivíduo e de todo seu círculo social. Finalmente, nunca é demais enfatizar que um programa regular de atividades físicas não competitivas deveria ser utilizado na administração dos recursos humanos do APP/RJ, como uma maneira de aliviar o estresse cotidiano, desenvolver uma condição física compatível com a boa saúde, criar o hábito de movimentar todos os segmentos corporais com mais regularidade e prevenir os problemas que costumam acometer os trabalhadores de regimes sedentários.

Palavras-chave

Carga de trabalho; Metabolismo bioquímico; Controladores de Vôos; Aptidão Físico-profissional

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